Aquilo que a pele grita
- Tiago, você na internet é mais extrovertido. Pessoalmente, mal fala, só faz sorrir e ainda fecha os olhos. - É que sorrindo eu digo o quanto estou feliz por estar perto de você.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Começou o dia com uma grande dor de cabeça. Levantou-se da cama com
uma imensa vontade de continuar sonhando com o dia em que escreveria um
romance. Levantou-se e foi até a janela do quarto, onde se sentia quase
livre porque sabia que o mundo poderia ser seu. Olhou para o céu e
lembrou-se dos seus mortos. Seu marido mexeu-se na cama para um lado e
para o outro e perguntou porque ela havia acordado tão cedo. Ela nem deu
atenção e caminhou em direção ao quarto dos filhos para conferir se
estavam todos bem. Eram três, todos muito saudáveis.
Lembrou que um dia foi feliz. Lembrou que tivera muitos motivos para sair correndo e gritando sua alegria. Tomou um longo banho, vestiu uma roupa folgada e foi às ruas. Caminhou pela praia durante várias horas, até que voltou para casa e cuidou dos filhos.
Há tempos estava desempregada e sofria por depender do marido até para comprar calcinhas. O telefone tocou. Era sua irmã pedindo que ela cuidasse da sua sobrinha até a noite. Disse que não poderia, pois havia decidido viver um dia só seu.
Sentou-se na beira da cama e começou a escrever “ não é porque a gente sempre perdoa que as feridas param de doer...” Mal terminou a frase, e caiu em prantos, sentindo-se fraca, cheia de dores na alma e lepra no coração. Essa mulher é como tantas outras no mundo, que têm uma vida comum, filhos, marido, mas que guardam grandes mágoas pra vida inteira.
Mas ela também havia nascido para perdoar. Perdoou seu pai por ter morrido tão cedo e sua mãe por ter abandonado a família para viver com outro homem. Perdoou seus filhos por terem lhe causado tanto sofrimento nos partos e seu marido por ser o mesmo homem todos os dias. Só não lhe perdoava por não ser feliz.
Mas tinha esperança de um dia explodir de euforia, de experimentar uma droga nova, de dar um tapa no destino e escrever poemas. Cristiana não sabia como ia mudar, mas tinha absoluta certeza de que Deus existia, a quem também perdoava. “Que Deus me livre dessas trevas”, dizia sem parar.
Muitos anos se passaram e Cristiana escreveu o grande romance da sua vida. Teve quase uma overdose de cocaína e morreu de parto do seu quarto filho, a quem não teve tempo de perdoar.
Lembrou que um dia foi feliz. Lembrou que tivera muitos motivos para sair correndo e gritando sua alegria. Tomou um longo banho, vestiu uma roupa folgada e foi às ruas. Caminhou pela praia durante várias horas, até que voltou para casa e cuidou dos filhos.
Há tempos estava desempregada e sofria por depender do marido até para comprar calcinhas. O telefone tocou. Era sua irmã pedindo que ela cuidasse da sua sobrinha até a noite. Disse que não poderia, pois havia decidido viver um dia só seu.
Sentou-se na beira da cama e começou a escrever “ não é porque a gente sempre perdoa que as feridas param de doer...” Mal terminou a frase, e caiu em prantos, sentindo-se fraca, cheia de dores na alma e lepra no coração. Essa mulher é como tantas outras no mundo, que têm uma vida comum, filhos, marido, mas que guardam grandes mágoas pra vida inteira.
Mas ela também havia nascido para perdoar. Perdoou seu pai por ter morrido tão cedo e sua mãe por ter abandonado a família para viver com outro homem. Perdoou seus filhos por terem lhe causado tanto sofrimento nos partos e seu marido por ser o mesmo homem todos os dias. Só não lhe perdoava por não ser feliz.
Mas tinha esperança de um dia explodir de euforia, de experimentar uma droga nova, de dar um tapa no destino e escrever poemas. Cristiana não sabia como ia mudar, mas tinha absoluta certeza de que Deus existia, a quem também perdoava. “Que Deus me livre dessas trevas”, dizia sem parar.
Muitos anos se passaram e Cristiana escreveu o grande romance da sua vida. Teve quase uma overdose de cocaína e morreu de parto do seu quarto filho, a quem não teve tempo de perdoar.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Há uma vontade que é muito maior que qualquer lapso
de loucura transformada em poesia. Há o impulso. Há a abertura de braços para
aprisionar o instante que, de tão escorregadio, se perde entre suas próprias
pretensões de futuro. Há a cara cínica que esconde as hipérboles amenizando até
os eufemismos. Há a vida e há a sobrevida. Há a sobvida também, porque as
palavras se reinventam pra que caiba sempre mais um pra tomar um café, um chá
ou uma lapada de cana. Há a tapa que a vida dá. Há o rosto inchado de tanto
viver. Viver é dar a cara à tapa, receber murros de desespero, oferecer a outra
face e ganhar um beijo de segunda-feira. Há os que acreditam e alucinam, há
também os céticos que apodrecem no asfalto da dura realidade. A minha realidade
é inventada pra dar mais cores ao céu cinza do Recife. Há a roupa preta e, por
baixo, a pele preta. Há o cabelo duro e os piolhos da infância que hoje deve
ter outro nome porque infância não há mais. Há tantos prédios...há, também, a
vírgula que interrompe a minha respiração, mas que é semente e fruto de uma
ditadura gramatical. Há a mesóclise excitante de cada dia. Dar-te-ei um gole de
vidência pra que vejas como é incerto o futuro de quem não morre pelo menos uma
vez por semana. É preciso jogar fora as certezas e acreditar que amanhã tudo
pode ser qualquer coisa que nos fará vestir qualquer trapo e pisar numa poça de
água imunda, pegar a doença do rato, morrer fedendo e renascer menos doce. Há a
efusão. Há o delírio de querer coisas maiores. Há o que nunca existirá se você
não ousar botar a cabeça na janela, fechar os olhos e imaginar a sua rua sem
você. A rua que nunca foi sua nem nunca será porque sua só há você.
Queria lhe dizer que hoje acordei com sede de água limpa, a mesma água que Jesus teria transformado em vinho. A água era limpa? Gosto de vinhos vagabundos porque se é pra entorpecer a alma que seja com bebida de baixo custo, já que ser são tem me rasgado os bolsos. Você poderia me dizer se falta muito pra amanhecer? Quebrei todos os relógios pra esquecer que o tempo não me espera e que eu tenho preguiça de correr pra alcançar o próximo segundo. Lembrei da escola e dos professores da escola e das cantigas da escola e de como é irritante não pisar mais no mesmo chão. Já tenho netos, Clarice, todos gordos e famintos. Já me reconhecem quando chego, dou “bom dia” e os apalpo pra saber se há cólica...maldita cólica de cada infância. Minha cadela puérpera é feminista, mas como quase toda feminista deste século, adora ser tratada como fêmea frágil. Sinto-me gordo como uma vaca perto de parir, minha neguinha. Desculpa insistir, mas como está a tua mão? Percebeste que não obedeço tanto às regras gramaticais? Eu evoluí, Clarice! Larguei longe a melancolia e agora fecundo o amor próprio. Sabes que há uma nova reforma ortográfica da língua portuguesa? É...coisa de filho de chocadeira, claro – porque minhas galinhas são bem intencionadas. Eu nem quero largar a “minha língua”. Eu nem me deixo ser usado mais, sabias? Se até o trema foi abolido, por que a minha sensibilidade efusiva continuaria latente? Redundâncias nunca foram meu forte, mas eu precisava de um pouco de prolixidade. Tá, não foi isso que você me ensinou. Você me ensinou que é preciso se perder pra tentar se achar. Não? Você é hermética demais! Eu sou da geração da literatura de auto ajuda, mocinha. Tudo muito claro pra endoidar a cabeça de quem procura a loucura pra saciar alguma fome de esperança. Tua estátua ta fudida, quebraram teu cigarro, sabias? Puxa o pé! Eu puxaria e falaria no ouvido “a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre”. Já é dia? Meu pai dormiu ao som de ópera. Somos tão iguais que só sobram as diferenças. Queria cheirar teu pé, mas pé de existencialista fede porque pisa na podridão de cada afirmativa até levantar uma dúvida, cair em prantos e dormir suado. Eu passo, então. Que hoje ninguém cheire o meu pé. Conheci uma pessoa legal, Clarice, ela faz caras engraçadas no facebook ( não, não vou parar pra lhe explicar o que é rede social) e eu fico tentando decifrar os tantos “:v, =T”, então paro na frente do espelho, tento imitar o emoticon ( isto também não é do seu tempo) e descubro que sou retardado. É segunda-feira da aprendizagem e dos prazeres, minha Lispector. E Ulisses, como está? Eu sempre quis falar pra Lóri mandá-lo se lascar. Odeio gente 24h em equilíbrio! Sabes que sou péssimo nas conclusões quando o sono já não me deixa pensar, então vai tudo naquela base do adeus sem apertos de mão, certo? Cheiro!
“Há o direito ao grito, então eu grito” – Clarice Lispector
Queria lhe dizer que hoje acordei com sede de água limpa, a mesma água que Jesus teria transformado em vinho. A água era limpa? Gosto de vinhos vagabundos porque se é pra entorpecer a alma que seja com bebida de baixo custo, já que ser são tem me rasgado os bolsos. Você poderia me dizer se falta muito pra amanhecer? Quebrei todos os relógios pra esquecer que o tempo não me espera e que eu tenho preguiça de correr pra alcançar o próximo segundo. Lembrei da escola e dos professores da escola e das cantigas da escola e de como é irritante não pisar mais no mesmo chão. Já tenho netos, Clarice, todos gordos e famintos. Já me reconhecem quando chego, dou “bom dia” e os apalpo pra saber se há cólica...maldita cólica de cada infância. Minha cadela puérpera é feminista, mas como quase toda feminista deste século, adora ser tratada como fêmea frágil. Sinto-me gordo como uma vaca perto de parir, minha neguinha. Desculpa insistir, mas como está a tua mão? Percebeste que não obedeço tanto às regras gramaticais? Eu evoluí, Clarice! Larguei longe a melancolia e agora fecundo o amor próprio. Sabes que há uma nova reforma ortográfica da língua portuguesa? É...coisa de filho de chocadeira, claro – porque minhas galinhas são bem intencionadas. Eu nem quero largar a “minha língua”. Eu nem me deixo ser usado mais, sabias? Se até o trema foi abolido, por que a minha sensibilidade efusiva continuaria latente? Redundâncias nunca foram meu forte, mas eu precisava de um pouco de prolixidade. Tá, não foi isso que você me ensinou. Você me ensinou que é preciso se perder pra tentar se achar. Não? Você é hermética demais! Eu sou da geração da literatura de auto ajuda, mocinha. Tudo muito claro pra endoidar a cabeça de quem procura a loucura pra saciar alguma fome de esperança. Tua estátua ta fudida, quebraram teu cigarro, sabias? Puxa o pé! Eu puxaria e falaria no ouvido “a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre”. Já é dia? Meu pai dormiu ao som de ópera. Somos tão iguais que só sobram as diferenças. Queria cheirar teu pé, mas pé de existencialista fede porque pisa na podridão de cada afirmativa até levantar uma dúvida, cair em prantos e dormir suado. Eu passo, então. Que hoje ninguém cheire o meu pé. Conheci uma pessoa legal, Clarice, ela faz caras engraçadas no facebook ( não, não vou parar pra lhe explicar o que é rede social) e eu fico tentando decifrar os tantos “:v, =T”, então paro na frente do espelho, tento imitar o emoticon ( isto também não é do seu tempo) e descubro que sou retardado. É segunda-feira da aprendizagem e dos prazeres, minha Lispector. E Ulisses, como está? Eu sempre quis falar pra Lóri mandá-lo se lascar. Odeio gente 24h em equilíbrio! Sabes que sou péssimo nas conclusões quando o sono já não me deixa pensar, então vai tudo naquela base do adeus sem apertos de mão, certo? Cheiro!
“Há o direito ao grito, então eu grito” – Clarice Lispector
Que
ninguém se engane. Ninguém vai lhe preencher. Ninguém vai lhe
completar. Você precisa encontrar em você o que tanto procura nos
outros. Você quer passar a vida sendo passivo da existência humana? Se
olhe no espelho, depois feche os olhos e se enxergue. Ame, antes de
qualquer outra pessoa, você mesmo. Se adore, se idolatre. Encha seu
peito de amor próprio ao invés de se submeter às variadas formas
frenéticas de procurar no outro aquilo que só existirá em você. Ninguém
veio ao mundo para lhe completar. Até as panelas, quando são boas,
cozinham sem tampas. Crie forças e caminhe com suas próprias pernas e,
caso queira compartilhar - eu disse compartilhar, procure outra pessoa. O
câncer do século é a falta de amor próprio.
É
aquela tal alucinação que enfraquece todas as certezas de maturidade.
As mãos tremem alertando que nem tudo vai bem: a apatia planejada abre
espaço pro aperto que a vida dá. A tapa na cara que a sobrevivência dá
pra mostrar que amor de poeta é delírio. A tal aleluia que fica presa na
garganta. Aquela vontade de ir além quando o além está longe demais. A
vontade de ser mais eu quando o meu ser habita outros horizontes, aí
volto a ser a poeira das ruas, a árvore que não dá frutos quando frutos
são necessários pra que haja a sobrevida. Então permaneço a mesma
criança de sempre que escreve poemas na tentativa de dar à alma a
transparência obrigatória.
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