Começou o dia com uma grande dor de cabeça. Levantou-se da cama com
uma imensa vontade de continuar sonhando com o dia em que escreveria um
romance. Levantou-se e foi até a janela do quarto, onde se sentia quase
livre porque sabia que o mundo poderia ser seu. Olhou para o céu e
lembrou-se dos seus mortos. Seu marido mexeu-se na cama para um lado e
para o outro e perguntou porque ela havia acordado tão cedo. Ela nem deu
atenção e caminhou em direção ao quarto dos filhos para conferir se
estavam todos bem. Eram três, todos muito saudáveis.
Lembrou que
um dia foi feliz. Lembrou que tivera muitos motivos para sair correndo e
gritando sua alegria. Tomou um longo banho, vestiu uma roupa folgada e
foi às ruas. Caminhou pela praia durante várias horas, até que voltou
para casa e cuidou dos filhos.
Há tempos estava desempregada e
sofria por depender do marido até para comprar calcinhas. O telefone
tocou. Era sua irmã pedindo que ela cuidasse da sua sobrinha até a
noite. Disse que não poderia, pois havia decidido viver um dia só seu.
Sentou-se
na beira da cama e começou a escrever “ não é porque a gente sempre
perdoa que as feridas param de doer...” Mal terminou a frase, e caiu em
prantos, sentindo-se fraca, cheia de dores na alma e lepra no coração.
Essa mulher é como tantas outras no mundo, que têm uma vida comum,
filhos, marido, mas que guardam grandes mágoas pra vida inteira.
Mas
ela também havia nascido para perdoar. Perdoou seu pai por ter morrido
tão cedo e sua mãe por ter abandonado a família para viver com outro
homem. Perdoou seus filhos por terem lhe causado tanto sofrimento nos
partos e seu marido por ser o mesmo homem todos os dias. Só não lhe
perdoava por não ser feliz.
Mas tinha esperança de um dia explodir
de euforia, de experimentar uma droga nova, de dar um tapa no destino e
escrever poemas. Cristiana não sabia como ia mudar, mas tinha absoluta
certeza de que Deus existia, a quem também perdoava. “Que Deus me livre
dessas trevas”, dizia sem parar.
Muitos anos se passaram e
Cristiana escreveu o grande romance da sua vida. Teve quase uma overdose
de cocaína e morreu de parto do seu quarto filho, a quem não teve tempo
de perdoar.
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