Há uma vontade que é muito maior que qualquer lapso
de loucura transformada em poesia. Há o impulso. Há a abertura de braços para
aprisionar o instante que, de tão escorregadio, se perde entre suas próprias
pretensões de futuro. Há a cara cínica que esconde as hipérboles amenizando até
os eufemismos. Há a vida e há a sobrevida. Há a sobvida também, porque as
palavras se reinventam pra que caiba sempre mais um pra tomar um café, um chá
ou uma lapada de cana. Há a tapa que a vida dá. Há o rosto inchado de tanto
viver. Viver é dar a cara à tapa, receber murros de desespero, oferecer a outra
face e ganhar um beijo de segunda-feira. Há os que acreditam e alucinam, há
também os céticos que apodrecem no asfalto da dura realidade. A minha realidade
é inventada pra dar mais cores ao céu cinza do Recife. Há a roupa preta e, por
baixo, a pele preta. Há o cabelo duro e os piolhos da infância que hoje deve
ter outro nome porque infância não há mais. Há tantos prédios...há, também, a
vírgula que interrompe a minha respiração, mas que é semente e fruto de uma
ditadura gramatical. Há a mesóclise excitante de cada dia. Dar-te-ei um gole de
vidência pra que vejas como é incerto o futuro de quem não morre pelo menos uma
vez por semana. É preciso jogar fora as certezas e acreditar que amanhã tudo
pode ser qualquer coisa que nos fará vestir qualquer trapo e pisar numa poça de
água imunda, pegar a doença do rato, morrer fedendo e renascer menos doce. Há a
efusão. Há o delírio de querer coisas maiores. Há o que nunca existirá se você
não ousar botar a cabeça na janela, fechar os olhos e imaginar a sua rua sem
você. A rua que nunca foi sua nem nunca será porque sua só há você.
Queria lhe dizer que hoje acordei com sede de água limpa, a mesma água que Jesus teria transformado em vinho. A água era limpa? Gosto de vinhos vagabundos porque se é pra entorpecer a alma que seja com bebida de baixo custo, já que ser são tem me rasgado os bolsos. Você poderia me dizer se falta muito pra amanhecer? Quebrei todos os relógios pra esquecer que o tempo não me espera e que eu tenho preguiça de correr pra alcançar o próximo segundo. Lembrei da escola e dos professores da escola e das cantigas da escola e de como é irritante não pisar mais no mesmo chão. Já tenho netos, Clarice, todos gordos e famintos. Já me reconhecem quando chego, dou “bom dia” e os apalpo pra saber se há cólica...maldita cólica de cada infância. Minha cadela puérpera é feminista, mas como quase toda feminista deste século, adora ser tratada como fêmea frágil. Sinto-me gordo como uma vaca perto de parir, minha neguinha. Desculpa insistir, mas como está a tua mão? Percebeste que não obedeço tanto às regras gramaticais? Eu evoluí, Clarice! Larguei longe a melancolia e agora fecundo o amor próprio. Sabes que há uma nova reforma ortográfica da língua portuguesa? É...coisa de filho de chocadeira, claro – porque minhas galinhas são bem intencionadas. Eu nem quero largar a “minha língua”. Eu nem me deixo ser usado mais, sabias? Se até o trema foi abolido, por que a minha sensibilidade efusiva continuaria latente? Redundâncias nunca foram meu forte, mas eu precisava de um pouco de prolixidade. Tá, não foi isso que você me ensinou. Você me ensinou que é preciso se perder pra tentar se achar. Não? Você é hermética demais! Eu sou da geração da literatura de auto ajuda, mocinha. Tudo muito claro pra endoidar a cabeça de quem procura a loucura pra saciar alguma fome de esperança. Tua estátua ta fudida, quebraram teu cigarro, sabias? Puxa o pé! Eu puxaria e falaria no ouvido “a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre”. Já é dia? Meu pai dormiu ao som de ópera. Somos tão iguais que só sobram as diferenças. Queria cheirar teu pé, mas pé de existencialista fede porque pisa na podridão de cada afirmativa até levantar uma dúvida, cair em prantos e dormir suado. Eu passo, então. Que hoje ninguém cheire o meu pé. Conheci uma pessoa legal, Clarice, ela faz caras engraçadas no facebook ( não, não vou parar pra lhe explicar o que é rede social) e eu fico tentando decifrar os tantos “:v, =T”, então paro na frente do espelho, tento imitar o emoticon ( isto também não é do seu tempo) e descubro que sou retardado. É segunda-feira da aprendizagem e dos prazeres, minha Lispector. E Ulisses, como está? Eu sempre quis falar pra Lóri mandá-lo se lascar. Odeio gente 24h em equilíbrio! Sabes que sou péssimo nas conclusões quando o sono já não me deixa pensar, então vai tudo naquela base do adeus sem apertos de mão, certo? Cheiro!
“Há o direito ao grito, então eu grito” – Clarice Lispector
Queria lhe dizer que hoje acordei com sede de água limpa, a mesma água que Jesus teria transformado em vinho. A água era limpa? Gosto de vinhos vagabundos porque se é pra entorpecer a alma que seja com bebida de baixo custo, já que ser são tem me rasgado os bolsos. Você poderia me dizer se falta muito pra amanhecer? Quebrei todos os relógios pra esquecer que o tempo não me espera e que eu tenho preguiça de correr pra alcançar o próximo segundo. Lembrei da escola e dos professores da escola e das cantigas da escola e de como é irritante não pisar mais no mesmo chão. Já tenho netos, Clarice, todos gordos e famintos. Já me reconhecem quando chego, dou “bom dia” e os apalpo pra saber se há cólica...maldita cólica de cada infância. Minha cadela puérpera é feminista, mas como quase toda feminista deste século, adora ser tratada como fêmea frágil. Sinto-me gordo como uma vaca perto de parir, minha neguinha. Desculpa insistir, mas como está a tua mão? Percebeste que não obedeço tanto às regras gramaticais? Eu evoluí, Clarice! Larguei longe a melancolia e agora fecundo o amor próprio. Sabes que há uma nova reforma ortográfica da língua portuguesa? É...coisa de filho de chocadeira, claro – porque minhas galinhas são bem intencionadas. Eu nem quero largar a “minha língua”. Eu nem me deixo ser usado mais, sabias? Se até o trema foi abolido, por que a minha sensibilidade efusiva continuaria latente? Redundâncias nunca foram meu forte, mas eu precisava de um pouco de prolixidade. Tá, não foi isso que você me ensinou. Você me ensinou que é preciso se perder pra tentar se achar. Não? Você é hermética demais! Eu sou da geração da literatura de auto ajuda, mocinha. Tudo muito claro pra endoidar a cabeça de quem procura a loucura pra saciar alguma fome de esperança. Tua estátua ta fudida, quebraram teu cigarro, sabias? Puxa o pé! Eu puxaria e falaria no ouvido “a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre”. Já é dia? Meu pai dormiu ao som de ópera. Somos tão iguais que só sobram as diferenças. Queria cheirar teu pé, mas pé de existencialista fede porque pisa na podridão de cada afirmativa até levantar uma dúvida, cair em prantos e dormir suado. Eu passo, então. Que hoje ninguém cheire o meu pé. Conheci uma pessoa legal, Clarice, ela faz caras engraçadas no facebook ( não, não vou parar pra lhe explicar o que é rede social) e eu fico tentando decifrar os tantos “:v, =T”, então paro na frente do espelho, tento imitar o emoticon ( isto também não é do seu tempo) e descubro que sou retardado. É segunda-feira da aprendizagem e dos prazeres, minha Lispector. E Ulisses, como está? Eu sempre quis falar pra Lóri mandá-lo se lascar. Odeio gente 24h em equilíbrio! Sabes que sou péssimo nas conclusões quando o sono já não me deixa pensar, então vai tudo naquela base do adeus sem apertos de mão, certo? Cheiro!
“Há o direito ao grito, então eu grito” – Clarice Lispector
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